segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Dualidade Social

O homem é um animal político. Disse Aristoteles. Podemos não entender à partida aquilo que este autor quis dizer, no entanto é breve a explicação. Aquilo que quer dizer é que o homem é um ser social, ou seja nós enquanto homens temos a necessidade de viver em sociedade.
No entanto é interessante verificar a nossa necessidade de sociedade. Verifico que essa apenas serve para nos “facilitar”. Quer isto dizer que é verificável que em todos os nossos movimentos sociais, aquilo que se tenciona manter é o nosso nível individual estável. Ou seja, para proveito próprio.
A Família, é o exemplo mais fácil de sociedade, e é ela também a primeira a existir na nossa vida. E durante essa existência há erros cruciais que não aconteciam se não agíssemos em proveito próprio, ou que poderiam não existir exactamente por proveito próprio. Compreendo que isto é uma dualidade antagónica, mas verifiquemos:
Terei eu hipótese em quanto mulher de escolher dois caminhos, ter filhos ou não os ter. Se os não tiver, serei acusada de egoísmo, e de facto só não os terei por me preocupar comigo, podendo não ser apenas por questões monetárias, mas sim por valores morais, ou ate por ambos. Quando falo em valores morais refiro-me sobretudo à necessidade de não desiludir aquele que nos é próximo.
Ora mantendo-nos nesta óptica de desilusão, verifico que a escolha de ter filhos é igualmente controversa pela mesma. Quantos pais não desiludem os seus filhos? Muito poucos. Não apenas os negligentes, mas todos.
Criamos grandes expectativas à volta dos nossos ídolos que começam por ser obviamente aqueles que nos estão próximos. E normalmente essas desilusões são muito mais graves, porque derramam qualquer orgulho que até à data existiriam. Muitos pais o fazem sem se aperceberem, e muitos também na ingenuidade que os filhos nunca iram saber… como se os filhos uma vez crianças, o fossem para sempre.
Não quero com isto educar ninguém, embora o desejasse. No entanto ficaria contente, se alguém ao ler, agisse de forma diferente. Já que enquanto ser social não conseguimos respeitar a vontade de todos, sem que a nossa prevaleça. Ao menos que deixássemos prevalecer aquela dos que nos são próximos, dos que amamos. Mesmo que isso servisse apenas para manter o seu amor como certo… mesmo que fosse apenas para não ficarmos sós num futuro. Ou até e apenas para mantermos a fasquia de orgulho, sem qualquer ofensa.
Esperaria eu de um pai um abandono? Uma traição? Então como tenho coragem, e até vontade de o fazer? Como é que não sinto arrependimento?
E pensem, uma traição a um pai dos nossos filhos é igualmente uma desilusão para os filhos. É igualmente uma frustração que pode resultar de duas formas, ou é tomado por exemplo, ou é tomado como repulsa. E em ambos os casos não vejo qualquer futuro promissor.
Este foi possivelmente o texto mais “simples” que escrevi, mas foi exactamente pela necessidade que tenho de desabafar. Não por mim, mas pelos que me envolvem. É de extrema frustração ver qualquer tipo de traição!

quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

Quem sou eu?

Deparamo-nos diariamente com pessoas de todos os géneros, algumas mais semelhantes, e outras com várias diferenças. Possivelmente serão as pessoas com mais diferenças que nos causam maior transtorno. Não porque não seja normal vê-las, mas porque estamos socialmente condicionados a corresponder ao mesmo tipo de comportamentos, para conjugarmos a vivencia “feliz” de todos.

Desde que nascemos que somos condicionados pelas influencias que as pessoas presentes na nossa vida, nos provocam. Algumas dessas aproveitamos positivamente e outras negativamente. Sendo que é complicado definir a existência de um “eu” diferente, quando aquilo que nos fazem pensar, é que deveremos ser todos iguais.

Essa imposição, é de tal forma absorvida pelo nosso inconsciente, que involuntariamente passamos a tê-lo como um dever. Dever esse que pode ultrapassar todos os limites. Refiro-me a limites quando falo de descriminação. Qualquer tipo de descriminação seria valida nesta observação, mas vou focar-me apenas numa.

É visível no rosto de todos, um certo desconforto quando passamos por algum portador de deficiência mental, pois o seu comportamento é diferente. É como se não tivessem regras, e a falta delas nos influencia-se. Aquilo que não percebemos, é que essas pessoas são muito menos condicionadas que nós, e mesmo que possam não ter consciência disso, agem de forma mais natural, ao contrario de nós que agimos pelo que consideramos “bem”.

Aquilo que consideramos “bem”, varia da nossa construção de auto-conceito. Isto é, cada um age conforme aquilo que filtrou das suas influencias, e aquilo que a sua memoria selectiva guardou das experiencias. Assim, perdemos de certa forma a nossa identidade, para nos tornarmos reflexo da sociedade em que vivemos. Primeiramente perdemo-la para as influências que vamos absorvendo. E posteriormente filtramos as nossas memórias guardando para nós, apenas aquilo que consideramos como “bem”. Em alguns casos também guarda-mos experiencias negativas a fim de reforçar o dever de não as repetir.

Possivelmente se agíssemos como a pessoa portadora de deficiência mental, não conseguiríamos viver em harmonia na sociedade. Mas será que vale a pena viver em harmonia dentro de uma sociedade, se formos apenas o reflexo dela? Conseguiremos nós algum dia utilizar o marcador somático, para uma reacção em que não envolvamos a razão? E ainda assim, as somas que faremos nesse marcador, serão verdadeiramente nossas ou por outro lado fruto da nossa memória influenciada?
Uma última pergunta, consegue responder à pergunta “Quem sou eu?”?

quinta-feira, 20 de Agosto de 2009

Ode

Entrei. Estou numa maca fria. E não sei o que estou aqui a fazer. Vejo pessoas de branco, e alguma de verde. Com sapatos estranhos e não param de falar em língua que não entendo. Vêm ter comigo e dizem coisas que não sei. Meteram-me uma agulha na mão. Au! Doeu e não me pude queixar. Ainda se o fizesse não entenderiam.

Está um quadro enorme do meu lado direito. Diz coisas que não entendo, mais há direita. Não está legível. Mas na esquerda diz coisas que já foram. Parecem coisas que já disse. Mas não sei. Vejo no meio o meu nome. Consigo lê-lo. Mas porque é que estou aqui?

Agora veio uma enfermeira. Não sei o que é que ela quer, parece que tenta que eu fale. Mas eu não consigo. Não sei o que dizer. Não sinto nada, acho que estou adormecida. Mas não sei.

Vejo um bisturi, mas não é igual. Tem uma cor diferente. Creees. Cortaram-me o peito. Estou numa cirurgia. Já me lembro, quis eu dizer palavras. Palavras que não dissessem nada mas que significassem tudo. Quero abrir o meu peito, e fazer uma cirurgia de sentimentos. Que com o Bisturi do meu amor por ti, vai traduzir-se em palavras.

Mas as palavras não saem. Os sentimentos espalham-se pelo meu sangue, e eu só sei dizer que te amo.

Agora estou cheia de sangue. A cirurgia está a agravar-se. Oiço zumbidos na cabeça e não sei o que me querem dizer. Talvez se fosse um animal perceberia. Dizem que os cães conseguem ouvir o barulho mais apagado. Mas não sou um animal!

Aparece uma nova sensação, chama-se frustração. Não veio com a enfermeira, não, não a vi trazer. Mas sinto-o. Porque quando tento dizer-te, já passou. O tempo foi além do meu pensamento, e puff. Senti-me outra vez calada.

Talvez seja normal, estou a ouvir zumbidos, estou numa cirurgia, e tenho o corpo adormecido. Ainda assim, e só com o pensamento não consigo dizer-te. Isto não me sai! Enfim… Se pudesse sentir os olhos, ao menos choraria. Mas só consigo sentir o peito, e por isso adormeço o meu corpo, enquanto Amo.

Amo com toda a força. Com algo que não se vê. Oiço a palavra Alma. Mas não sei o que quer dizer. Eles só dizem coisas que não entendo. Não, não quero isto. Quero dizer-te. Mas onde é que estás tu?

Já sai dali. Dizem que correu mal. Ninguém espera que o meu corpo consiga acordar. Dizem que morri.

O meu corpo está morto e eu já o sei. Adormeci-o para amar.

Agora amo-te mas não tenho corpo. Agora sinto-o. Mas não sei dizê-lo. Procuro as palavras vezes sem conta. Mas enquanto o penso… já passou!